O tal tricô moderno

Lendo a postagem da Glenna contando sobre o passado que ela viveu, fiquei pensando como isso aconteceu comigo. Recomendo a leitura da postagem dela, mas como é em inglês vou dar uma passada rapidíssima no que ela disse:

Ela está contando que fez uma arrumação nos livros, e que achou um monte de papelada dos idos 2008, ou até antes. Quando ela tinha uma vontade de imprimir tudo porque a sensação é que cada novo projeto maravilhoso era único e tinha que ser tricotado. Além disso, ela contou que tem muita papelada dessa época que hoje não faz mais sentido, porque tem em PDF na net. E que o Ravelry revolucionou o jeito ~dela~ lidar com projetos. Que mais? Ela também disse que hoje usamos tablets que era coisas de ficção científica naquela época. Ah, e comentou sobre alguns dos projetos que foram moda.

Bom, e eu fiquei pensando. Tive claramente duas fases do meu tricô, uma delas em criança. Se eu fosse uma tricoteira famosa e morta, diriam que era minha “fase cobertor de barbie” (me sentindo Pablo Picasso na “fase azul”). A outra fase é mais recente. Bem recente. Mais recente que o Ravelry.

Ou seja, eu me formei tricoteira mirin já com o Ravelry funcionando e bombando! Eu já comecei com PDFs e tablets. Eu já não preciso me preocupar com impressão e montanhas de papeis. E, mana, isso é bom! Isso é muito bom!

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Detalhe de uma barra rebruscada

Eu até tenho uma pasta em casa, um fichário na verdade, e eu até guardo cópias de coisas que eventualmente eu imprimi, mas basicamente guardo tudo meu na nuvem, seja na biblioteca do Ravelry, seja no OneDrive/Dropbox/GDrive.

Hoje temos o instagram para a frugalidade das fotos maravilhosas e passageiras. Temos o Face podemos achar qualquer pessoa. Temos torrents para piratear tudo e mais um pouco. Só de não ter que carregar pela vida os papeis, eu já fico feliz.

Mas deixa eu também falar sobre o pouco que eu me lembro do passado. No tempo em que eu sentava no chão da sala enquanto minha mãe fazia alguma coisa e tentava me ensinar tricô (e sim, eu aprendi a montar pontos, aprendi o tricô e o meia, e arremater com mate simples). Minha mãe sempre foi muito do crochê, e quem manjava de tricô era a vizinha da frente. A mãe da vizinha da frente era rica e tinha (puro glamur) revistas! Sim ela era rica e mesmo naquela época a mulher viajava para a Pousada do Rio Quente!

Estou contando isso porque na minha cabeça de criança do interior de São Paulo que ia no Carrefour comprar latas e latas de oleo porque o Sarney remarcava os preços diariamente, ter revistas ou viajar era coisa de gente riquíssima. Eu fui ter uma caixa de lápis de cor completo no colegial, antes disso era tudo resto de lápis que juntos pareciam uma caixa. Eu sou do tempo que caixa de bombom era dividida como herança (se bobear, tinha até juiz)!

E foram essas revistas da mãe da vizinha que era riquissima as únicas fontes de conhecimento técnico sobre tricô que chegaram em casa. E foi delas que minha mãe tirou todos os casacos que ela fez, sem amostra, sem agulha certa, sem medida, tudo no olho.

Olhando debaixo, de quem senta no chão durante o Jornal Nacional para tricotar 20 pontos numa linha velha e dura, sempre me pareceu que as blusas nasciam diretamente da cabeça da minha mãe. O único plano era qual ponto usar. E o caderninho de pontos fervia! E todos os pontos se chamavam Ponto Fantasia ou Ponto Pavão (até hoje todos os pontos variam entre fantasia e pavão, mas acho que também poderia haver o ponto mistério) e era no caderninho de pontos que a mágica acontecia (o mesmo caderno que minha mãe usava para anotar receitas e a cotação da poupança diariamente).

Então, descobrir um jeito novo de fazer barra (2×2) era uma festa, ou um ponto novo, ou um modelo novo. Nessa época minha mãe tinha 3 pares de agulhas que já era de algum metal. Mas um dos pares era xodó, porque uma das agulhas era errada e tinha a ponta mais afiada do que as outras. E nunca houve jeito de comprar mais agulhas, e algum pouco tempo depois, apenas plástico ruim. E o tricô morreu, deu lugar ao bordado, e nos últimos anos ao Hardanger.

E é isso que me lembro do tricô da minha infância, dificuldade. Dificuldade nas agulhas, nos pontos, nos modelos, e no emprestimo de revistas diferentes. Tudo era luta (e todo mundo guardava tudo com muito carinho e afinco, então os empréstimos nunca eram longos).

Antes disso, eu não existia e não tenho como dizer. Naquele tempo, meu mundinho era o tapete da sala durante o Jornal Nacional. Hoje, bem hoje vocês sabem.

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Exemplo clássico de como era o tricô no meu passado (não o meu tricô, mas o melhor do tricô existente no meu mundinho naquela época)

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